Um carro novo para ir à manifestação

4 abr

É claro que não há qualquer relação de causa e efeito, mas as estatísticas não deixam qualquer dúvida de que quanto mais se aprofunda a crise política do País, por mais incrível que parecer possa, mais aumentam as vendas de automóveis e de caminhões.

Neste inicio de abril, em particular, esta aparente incongruência alcançou um de seus pontos máximos, tal e qual Brasília e São Paulo e Paraná ficassem em países diferentes, sem nada a ver um com o outro.

Nas vésperas do Supremo Tribunal Federal começar a discutir, em Brasília, na quarta-feira, se um ex-presidente da Republica e virtual candidato à reeleição neste ano deveria ou não ser preso de imediato, a Fenabrave abria a semana, em São Paulo, revendo para cima, e bem para cima, suas projeções de vendas de veículos neste ano.

Simultaneamente, no interior do estado de São Paulo a Honda anunciava a abertura, enfim, de sua fabrica em Itaparica, literalmente fechada desde que ficou pronta, há cerca de dois anos.

E no Paraná a Volkswagen não apenas anunciava a produção de um novo SVU em sua fabrica de São José dos Pinhais como formalizava o retorno da operação em um turno completo, com a volta  ao trabalho de 771 operários que estavam em lay-off, 450 de imediato e outros 321 ao longo do ano.

OUSADIA – Em qualquer outra época ou País a prudência recomendaria aguardar no mínimo mais uma semana, pelo menos até a definição do STF, antes de cravar aposta formal tão firme e otimista. Todavia,  quando se aprofunda a pesquisa em relação aos números do setor, fica claro que Fenabrave, Honda e Volkswagen tiveram, de fato, boas e concretas razoes para tanto ousadia.

Desde meados do segundo semestre do ano passado, mês a mês os consumidores de veículos vem ignorando solenemente o conturbado quadro político do País, cada mais complexo e indefinido. E o resultado prático desta postura são vendas cada vez maiores. Tanto de automóveis quanto de caminhões.

O setor iniciou o segundo semestre do ano passado tendo como meta manter, quanto muito, patamar médio de vendas diárias na casa das 7 mil unidades.

Era, ainda, na verdade, mais esperança do que propriamente meta. No final do ano esse numero já havia subido para 8 mil. E, no mês passado, bateu em 9 mil unidades/dia.

OS NÚMEROS – Em termos concretos, os consumidores compraram 207 mil 347 veículos em março, 17% mais que no mesmo mês do ano passado.

Com isso, o primeiro trimestre deste ano fechou com vendas domésticas do ordem 545 mil 507 unidades, 15,5% acima do registrado no mesmo período de 2017.

Foram estes números que animaram a Fenabrave na terça-feira a subir a projeção das venda domésticas de veículos neste ano para 2,5 milhões de unidades, 15,2% mais que no ano passado. Este novo índice é nada menos que 27% superior a ao que havia sido anunciado pela mesma entidade há apenas três meses, em janeiro.

Entre as razões apresentadas, o continuado descolamento entre a política e a economia, com o decorrente fim das demissões em massa, redução das taxas de juros, inflação até abaixo da meta e projeção da volta do resultado positivo na esfera do Produto Interno Bruto, após três anos seguidos de queda.

FAVOR E CONTRA – A noite da mesma terça-feira foi marcada por manifestações publicas nas principais cidades do Pais, metade a favor e metade contra a prisão do ex-presidente da República, o que o impediria de participar as eleições executivas programadas para o segundo semestre.

E no Supremo Tribunal Federal, em particular, a tarde desta quarta-feira começou com dois votos opostos.  Um a favor e outro contra. E a discussão alongou-se noite adentro, com direito a acalorados debates no plenário que depois, quando definido o resultado final,  certamente devem ter se estendido até as calçadas das principais  ruas e as mesas de bares espalhadas por todo o País.

No interior das concessionárias ligadas a Fenabrave, enquanto isso, ao menos aparentemente os consumidores se mantinham  a margem de toda esta discussão.  Continuavam — felizmente para as empresas e empregados das empresas do setor — mais interessados em conhecer os pormenores dos diversos novos modelos que vem sendo semanalmente apresentados pelas diversas montadoras. Em especial os SUVs, sobretudo os parecidos com aquele que acabou se ser comprado pelo vizinho ou pelo cunhado.

No mínimo para ter um carro novo para se deslocar para a  próxima manifestação. Seja a favor ou contra.

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