Nada mais será como antes

20 mar

Nos últimos meses um novo tipo de veículo, intermediário, capaz de transportar como todo conforto de seis a doze passageiros passou a fazer  parte do leque de projetos elétricos e autônomos nos quais hoje trabalham  as principais montadoras em todo o mundo.

Em se tratando de um setor cada vez mais as voltas com a necessidade de convencer seus consumidores, sobretudo os da nova geração, de que precisam e  devem continuar comprando os automóveis tais como os que hoje fabricam, pode até aparecer um tiro no pé – ou, talvez, mais precisamente, na roda.

A contradição, todavia, é apenas aparente. Qualquer executivo do setor automotivo sabe que não há mais como continuar empurrando com a barriga uma mudança algo radical na forma como hoje os veículos, e dentre eles os automóveis em particular, são projetados, produzidos, comercializados e principalmente utilizados, quase sempre com apenas uma pessoa, o motorista, a bordo.

ESCANDALOS – É bem verdade que os recentes escândalos envolvendo as fraudes em relação a poluição causada pelos motores diesel deram um forte impulso nesta tendência de mudança — ainda mais quando passaram a envolver macacos e, ufa!, humanos. Mas o problema é antigo. E há décadas vem sendo jogado para a frente pelo setor.

Há exatos vinte anos, para citar apenas um exemplo, ao deixar a presidência da Anfavea,  entidade cujo comando assumira em 1995, Silvano Valentino, que também presidia a Fiat, lamentou não ter mais dado bem mais ênfase em sua gestão a defesa do transporte coletivo.

Disciplinado estudioso do setor automotivo, já naquela época Valentino entendia que caso o automóvel não passasse a ser utilizado por seus proprietários basicamente para o lazer, o futuro de todo o setor automotivo estaria seriamente comprometido.

Quando utilizado para tudo, inclusive para ir e voltar do trabalho ou da escola, o automóvel – entendia Valentino – entulhava as ruas, gerava incômodos congestionamentos e emporcalhava o ar das cidades. Em termos práticos tornava-se, assim, a cada dia, um produto mais inviável.

CAMALEÃO – No entanto, na falta de outra alternativa melhor para garantir a liberdade da mobilidade individual – o chamado direito de ir e vir, na hora, pelo caminho e na companhia de quem se escolher – o automóvel  resistiu bravamente.

Cada vez mais pressionado, tratou de adotar padrão camaleônico em relação as novas e cada vez mais duras exigências legais: ficou mais leve, mais econômico e menos poluente, ainda que sempre a partir do mesmo centenário motor a combustão.

Conseguiu, assim, manter-se no topo da lista dos bens mais desejados pelos consumidores de todo o mundo, a despeito de sua extremamente critica relação custo beneficio. Critica? Põe critica nisso!

Vamos aos fatos: com pelo menos uma tonelada de peso, 90% da energia que um automóvel produz serve para movimentar a sí próprio. E seu proprietário, embora pague pelo veiculo com um todo, o utiliza não mais de duas a três horas por dia. Todo o restante do tempo ele, o automóvel, fica inerte. Estacionado. No mais doce e completo far niente.

O automóvel é, de longe, o bem mais caro e de menor utilização proporcional  na casa de qualquer consumidor. Qualquer liquidificador rende melhor relação custo beneficio. Bem melhor. No mínimo um suco melhor.

ADRENALINA – Mesmo assim, ainda que com todo esta lado racional contra, o automóvel e o setor automotivo sobreviveram aos alertas de Valentino. Como?

Certamente com uma boa ajuda da barulho do tal do motor a combustão – o da Ferrari, em particular, é… é… é… um barulho de motor da Ferrari!!!!!! –,  da adrenalina gerada por rodar a quase duzentos quilômetros hora e, por ultimo mas não menos importante, pelo gostinho de deixar evidente, na garagem do prédio, o inegável sucesso pessoal e profissional.

E foi assim que o automóvel sempre venceu. Até que … até que… até que… a partir de meados da primeira metade desta década o rápido avanço da internet começou a mudar estruturalmente os hábitos de consumo, com reflexos diretos na vida do setor automotivo.

Juntos internet, telefones celulares e aplicativos colocaram todos as pessoas fácil e permanentemente em contato e, assim, na prática, reduziram drasticamente a necessidade de deslocamento entre dois pontos para conviver com amigos ou parentes.

HOME OFFICE – E quando a este trio se juntaram os tablets e computadores, em particular os notebooks, estava aberta a porta para que a cada dia mais e mais pessoas pudessem passar a trabalhar em regime de home office, eliminando a necessidade do deslocamento diário da casa para a empresa e vice-versa.

Outra mudança importante foi a provocada pelos aplicativos tipo Uber, Calif ou 99 que garantem acesso a um carro na porta com motorista a qualquer hora e em qualquer lugar, seja em casa, no trabalho, num cliente ou até num restaurante, cinema ou teatro.

Mais recentemente chegaram os carros por assinatura: o pagamento de uma taxa mensal permite acesso a um aplicativo no celular que abre a porta do carro que fica estacionado na rua. A chave fica no porta-luvas e o pagamento é feito por hora, por quilometragem ou uma combinação das duas.

Ou seja: a partir de várias novas e diferentes possibilidades de uso mais racional do automóvel –  que, aliás, em boa parte do casos, para justa preocupação das montadoras,  dispensam a necessidade da  compra e/ou propriedade do carro –, o setor começa a viver uma nova realidade, bem diferente daquela que garantiu sua folgada sobrevivência por mais de um século.

LOTAÇÕES – É neste contexto que melhor se encaixam os veículos elétricos e autônomos com capacidade de levar, com todo conforto, de seis e doze pessoas.

Como conceito, tais veículos lembram os antigos lotações que eram comuns em São Paulo e no Rio do Janeiro nos anos 1960 e 1970. Oferecem a possibilidade de mobilidade com mais conforto do que os ônibus e um custo menor do que os taxis.

Devidamente adequados a estes novos tempos de telefones celulares e aplicativos ligados a gps, estas novas versões das lotações – as mais recentes das quais foram apresentadas há poucos dias no Salão do Automóvel de Genebra – podem até dar-se ao luxo de desviar ligeiramente de seu trajeto para pegar ou deixar o usuário em casa ou no trabalho.

Trata-se, em síntese, de mais uma maneira do setor automotivo tentar se adequar a estes novos tempos nos quais prover a mobilidade dos consumidores tende a representar uma nova frente de negócios, tão ou talvez até mais importante e rentável do que a produção e a venda dos veículos em si.

A mudança, é certo, vem sendo e continuará sendo gradativa, num processo cuja fase mais aguda tem, ainda, pelo menos de cinco a dez anos pela frente. Mas é igualmente certo que nada mais voltará a ser como antes no setor automotivo.

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