Confiança um tanto quanto desconfiada

26 fev

Animados com os bons resultados registrados nos dois primeiros meses deste ano, razoavelmente acima dos esperados, executivos do setor automotivo atrevem-se, agora, a projetar que as vendas domésticas de automóveis poderão crescer 20% neste ano na comparação com 2017, índice que, no caso especifico dos caminhões, chegaria a até 30%.

É a segunda vez em bem pouco tempo que executivos deste setor animam-se a melhorar as projeções para 2018. Depois dos bons números anotados no ultimo trimestre do ano passado, igualmente bem melhores do que os projetados, montadoras, fabricantes de componentes e concessionários já haviam passado a projetar, para 2018, crescimento de dois dígitos nas vendas de automóveis e de 20% nas de caminhões, cerca de  50% acima da aposta anterior, vigente três meses antes.

Há, todavia, um ponto, em particular, que insiste em continuar a tirar a tranquilidade do sono dos executivos do setor. Trata-se do velho e sábio dito popular de  que quando a esmola é muita, cabe ao santo desconfiar.

RAZÕES – Acontece que quem se aprofunda na busca das razões que estariam levando a tão positivo comportamento do mercado de veículos nestes últimos meses, o ponto mais concreto que encontra é o aumento da confiança dos consumidores em relação ao futuro.

É claro que a inflação em baixa, as taxas de juros com tendência declinante, o fim das demissões em massa e o inicio da redução das taxa de desemprego, todo isso colabora.

Também ajudam, e muito, tantos e tão frequentes lançamentos de produtos efetivamente novos, como os que acabam de ser realizados ou pelo menos anunciados, entre outras montadoras, pela Fiat, Volkswagen, Ford, General Motors, Renault, Nissan, PSA, Hyundai, Honda e Toyota.

São, de fato, muitas as novidades apresentadas, devidamente distribuídas pelos mais diversos segmentos do mercado. E todas, convenhamos, realmente apetitosas. Com real poder de levar os consumidores de volta para dentro das revendas, ainda que, inicialmente, por mera curiosidade.

COMBINAÇÃO – Em qualquer outra época, tal combinação de um bom leque de lançamentos com quadro econômico relativamente saudável seria mais que suficiente para garantir a certeza de bom desempenho para o setor automotivo, tanto na área de automóveis quando na de caminhões.

Desta vez, porém, ainda que as boas noticiais no front da econômica tenham conseguido melhorar o animo e os resultados mais recentes do mercado automotivo, as incertezas cada vez maiores na área política combinadas com os 13 milhões de desempregados que ainda restam dos três anos seguidos de recessão fazem com que a confiança dos consumidores em relação ao futuro permaneça ainda algo tênue, meio envergonhada. É, por assim dizer, uma confiança um tanto quanto desconfiada.

Como muito bem sabe qualquer pessoa com um mínimo de vivência na área automotiva, o grande risco embutido em tal situação está no fato de que as vendas deste setor são umbilicalmente dependentes de operações de financiamento com prazo médio de 24 a 36 meses. E, convenhamos,  para assumir tal compromisso, os consumidores tem, no mínimo, de confiar que vão permanecer empregados pelo menos ao longo de todo o período.

Tal risco, por sinal, acaba ainda mais potencializado pelo fato de que o consumidor, na verdade, não precisa nem parar de comprar para entulha os pátios dos concessionários e das montadoras.

Basta para isso que um bom punhado deles eventualmente atemorizados por qualquer nuvem mais escura que tenha surgido no horizonte — seja na economia, na política ou sobretudo, na área do emprego — passe a considerar que talvez seja mais prudente continuar rodando com o veiculo usado por mais dois, três ou quatro meses.

ACELERADOR – De qualquer forma, apesar de tais riscos serem do conhecimento geral no setor, as montadoras saem de fevereiro e preparam-se para entrar em março com o pé o acelerador: anunciam a contração de novos funcionários, ativam novos turnos, promovem lançamentos e até anunciam novos planos de investimentos, alguns especificamente para aumentar a capacidade de produção.

Acontece que há cerca de quatro anos, quando começou a crise da qual o setor agora começa a emergir, a brusca queda de vendas colheu as diversas empresas em momentos diferentes, o que desequilibrou a concorrência e gerou varias alterações no ranking setorial que em condições normais até poderiam ter acontecido mas, muito provavelmente, em proporções diferentes, bem menores.

Para ficar no caso apenas das três primeiras do ranking, a General Motors tinha acabado de renovar toda sua linha de produtos de uma só vez, enquanto a Fiat e a Volkswagen ainda prepararam o ciclo de modernização de suas respectivas fabricas que conduziriam, num segundo momento, a renovação e seus produtos, que só agora começa a acontecer.

OPOSTO – Pois bem:  neste momento de inicio de recuperação das vendas do setor, acontece exatamente o oposto: quem tem os produtos novos que acabam de chegar ao mercado são exatamente a Volkswagen, o Polo e o Virtus, e a Fiat, o Argo e o Cronos. E é claro que as duas vão querer aproveitar para recuperar parte do terreno perdido. No mínimo. Se possível mais. Bem mais. Muito mais.

Ao longo de todo o ranking setor, o quatro é semelhante: com novos trunfos nas mangas, montadoras que perderam espaço durante a crise estão, agora, de olho no consumidores das outras.

Neste contexto, por mais que um santo ainda se sinta desconfiado, muito desconfiado em relação a firmeza da atual recuperação do mercado, não vai querer abrir espaço para os demais. Com toda a certeza, ninguém vai querer correr o risco de ser o primeiro santo a piscar.

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