Maior socialização do acesso a livre mobilidade individual

18 fev

Cada vez com mais frequência montadoras de todos os continentes anunciam que estão deixando de ser apenas e tão somente fabricantes de veículos para se transformar em provedoras de mobilidade de pessoas ou de cargas.  E não se trata de mera figura de retórica.

Há, de fato, importante mudança estrutural em curso na vida do setor automotivo. As montadoras estão sendo forçadas a mudar para tentar evitar que empresas de outras áreas ocupem o novo espaço que se abre, o que as transformaria em simples coadjuvantes dentro de pelo menos boa parte da nova dinâmica setorial que começa a se impor.

Embora os veículos autônomos e elétricos  apareçam compreensivelmente como as grandes  e mais brilhantes estrelas no firmamento do futuro do setor, alguns dos  outros pontos de apoio deste novo ciclo já estão aí e são os telefones celulares e os aplicativos do tipo Uber, Cabify ou 99.

Ao deixar de tornar obrigatória a necessidade da compra e da decorrente propriedade de um veiculo próprio para garantir o direito a um carro na porta em qualquer lugar e em qualquer momento do dia ou da noite, tais aplicativos representam avanço concreto na direção do efetivo aumento do universo de pessoas com acesso ao menos eventual a livre mobilidade individual.

Representam, em síntese, que mesmo todo aquele imenso universo de pessoas ou de famílias sem condições de pagar uma prestação média mensal  não inferior a meio salário mínimo para comprar um carro passa a ter acesso, ao menos nos casos de necessidades ou situações específicas, ao direito da liberdade de ir e a voltar, na hora em que preferir e pelo caminho que escolher, sem depender da boa vontade ou de favores de quem quer que seja.

MELHOR ALTERNATIVA — Na esfera específica do setor automotivo, com tarifa inferior aos dos taxis convencionais, ao menos nos grandes centros tais aplicativos já hoje representam melhor alternativa financeira em relação ao compra do veiculo próprio para qualquer pessoa que rode, em média, menos de cinco a seis quilômetros por dia, o que engloba parte bem razoável do universo consumidor representado pelo segundo carro da família.

Pois bem, dentro de alguns poucos anos, quando os carros autônomos já fizerem parte da rotina urbana destes mesmos grandes centros, o serviço prestado a partir de tais aplicativos deixará de ter a necessidade de remunerar o motorista, o que permitirá a redução da tarifa em pelo menos 30%, talvez até perto da metade, dependendo da concorrência.

Quando isso acontecer, a rigor só quem utilizar o carro próprio, em média, mais de 10 a 15 km por dia é que precisará, de fato, continuar fazendo parte do hoje relativamente cativo mercado consumidor potencial que mantém vivas as empresas do setor automotivo.

Com o reflexo adicional, nada desprezível, de que, pela primeira vez desde que o automóvel foi inventado, em meados dos anos 1880, o custo do acesso ao direito de ter um carro na porta em caso de emergência, necessidade ou de simples lazer, como visita a familiares ou amigos em outro bairro, estará ao alcance de um número bem maior de pessoas, num consistente movimento de maior socialização do acesso a livre mobilidade individual.

EFEITO OPOSTO – Sem os celulares e os aplicativos, vale destacar, os carros autônomos poderiam representar até um aumento do mercado consumidor de automóveis, via a incorporação também de todos aqueles que não gostam ou que tenham limitações que os impeçam de dirigir.

A junção dos três – celulares, aplicativos e veículos autônomos – produz, todavia, o efeito oposto: reduz a necessidade da compra de carros e, por decorrência, seu mercado potencial em todo o mundo. E em particular, nos países menos desenvolvidos e de menor renda, cujas populações, na pratica, serão as maiores beneficiados por esta redução do custo do acesso a livre mobilidade individual.

São para estes novos tempos que as montadoras de todos os continentes tratam de tentar  se preparar quando anunciam que estão mudando o foco de seu negócios e deixando de se ser apenas fabricantes de veículos para  se transformar em provedores de mobilidade de pessoas e cargas.

A outra alternativa, afinal, seria aceitar passivamente o papel de coadjuvante e entregar este novo mercado  que começa a dar o ar da graça  — e que inclui como variáveis a oferta, por exemplo, de toda sorte de entretenimento a bordo —  para os vários pesos pesados que já ciscam na área, do tipo Apple, Google e Tesla, além da própria Uber e da  local 99, desde o inicio deste ano pertencente a Didi Chuxing, poderoso grupo chinês que, entre outras coisas, já assumiu o controle da própria Uber na China.

POUCO TEMPO – Nas montadoras, ninguém se atreve a projetar quanto tempo ainda se tem pela frente até que este novo ciclo comece a mostrar seus dentes de forma mais efetiva. Mas todos parecem ter a certeza de que, neste tempos de Nova Economia, em que a evolução deixou de ser aritmética e passou a ser exponencial, é questão de pouco tempo. Talvez até de menos tempo do que seria desejável em se tratando de um setor cujos ciclos de evolução e desenvolvimento de novos produtos raramente são inferiores a cinco anos.

Ninguém ainda se arrisca, também, a projetar quais poderão ser exatamente os mais prováveis efeitos de tais mudanças no tamanho do mercado e no perfil de faturamento das empresas que hoje compõe o setor. Os otimistas lembram que mesmo as empresas que operam com aplicativos sempre vão continuar comprando carros, ainda que autônomos e elétricos.

Já os pessimistas, de seu lado,  lembram que, a serviço das empresas de aplicativos, um mesmo carro atenderá muito mais gente e terá utilização bem maior e por muito mais tempo em relação a hoje, quando os carros dos consumidores comuns rodam, quanto muito, três a quatro horas por dia e ficam as vinte horas restantes estacionados na garagem da casa ou do trabalho de seu proprietário.

SOPA NO MEL – Os mais velhos consideram, ainda, que o ser humano jamais vai abrir mão do prazer de ter e de dirigir seu carro próprio e que, assim, tal mudança, na realidade, jamais acontecerá na prática.

No entanto, os suficientemente mais velhos para conviver em casa com filhos ou netos com menos de 30 anos de idade já sabem que os consumidores que fazem parte desta nova geração não tem qualquer apreço pelo carro próprio. Já sabem que para esta nova geração, para quem a prioridade parecer ser bem mais usar do que ter, a união de celulares, aplicativos e carros autônomos representa verdadeira sopa no mel.

2 thoughts on “Maior socialização do acesso a livre mobilidade individual

    • Obrigado, mestre. Vindo de você é um aval e tanto. Tenho a impressão que, de forma geral, as pessoas neste setor ainda não acordaram para o tamanho da mudança que vem pela frente. Tem muita gente que ainda está vendendo carros. Mas o carros já viraram uma lamparina há muito tempo. E quando você se atreve a falar isto para as pessoas elas olham para você com aquele ar de quem diz: coitado, endoideceu Quantas vezes você já passou por algo parecido ?

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