Dose surpreendentemente elevada de otimismo.

15 dez

Apesar da frustação com o desfecho do Rota 2030, do adiamento para fevereiro da definição da reforma previdenciária  e das incertezas cada vez maiores no front da politica, o setor automotivo chega ao final deste ano com dose supreendentemente elevada de otimismo em relação a 2018.

Apoiados nos bons resultados colhidos neste ultimo trimestre de 2017, bem acima dos esperados, executivos e estudiosos do setor passam a considerar como viável projetar crescimento de dois dígitos nas vendas domésticas de automóveis em 2018, na comparação com este ano. É ousadia de bom tamanho, antes exclusiva da General Motors.

Na área especifica da caminhões, cuja queda de vendas domésticas ao longo da crise setorial foi ainda mais pesada, a projeção de crescimento de dois dígitos em 2018 era relativamente generalizada desde o final do terceiro trimestre. Decorrência quase que natural da base bem mais deprimida.

Agora, porém, depois das vendas neste ultimo quarto do ano terem conseguido compensar a acentuada queda que tinha sido registrada de janeiro a março,  ganha corpo a aposta de crescimento, em 2018, já na faixa de 20% a, eventualmente, até 30%. Neste caso, ousadia que, antes, era exclusiva da Mann.

INTERESSE – É bem verdade que, a rigor, sempre se deva levar em conta que os executivos do setor automotivo teriam todo interesse em semear ao menos algum otimismo neste terreno tão cinza e pantanoso no qual o Brasil hoje trafega.

Afinal, é regra mais que conhecida de todos os que trabalham neste setor que a qualidade e a quantidade das vendas de automóveis e  de caminhões dependem fundamentalmente do grau de confiança dos consumidores e empresários em relação ao futuro.

É natural: enquanto consumidores otimistas tendem a fechar rapidamente o negócio, os pessimistas, ao contrário, tratam de adiar as compras de veículos, a espera de tempos melhores nos quais possam ter a certeza de que terão como arcar com o valor da prestação mensal a ser assumida no exato momento do fechamento do negócio.

Desta vez, no entanto, as declarações otimistas estão chegando  acompanhadas do aval de fatos concretos: montadoras ativam o terceiro turno de produção em algumas fábricas, parte dos empregados que estavam em lay off são chamados de volta, férias coletivas são encurtadas e  ofertas de boas e atraentes vagas  no setor começam a fazer parte da rotina das mídias sociais, em particular do Lindekin.

Na área específica de autopeças há um indicador ainda mais concreto: matéria da editora Gilmara Santos publicada na edição de quarta-feira, 13, da Agência AutoData mostra que segundo os dados coletados pelo Sindipeças os investimentos nesta área deverão crescer nada menos que 34,4% em 2018, para R$ 2,5 bilhões, frente a R$ 1,8 bilhão registrado neste ano – valor, por final, que já foi 19,7% maior que o registrado no ano anterior.

A BASE – O otimismo dos executivos ligados ao setor automotivo tem como base o fato do mercado doméstico vir registrando, neste ano, crescimento constante da média diária de vendas que, em novembro, voltou, inclusive, a superar a marca de 10 mil unidades, cerca de duas mil a mais do que o inicio do ano.

Apoia-se, também, no marcante crescimento das exportações de veículos, que deverão registrar recorde histórico em 2017, basicamente em decorrência da retomada das vendas no setor na Argentina, o principal destino no exterior dos veículos produzidos no Brasil, caminhões inclusive.

Como pano de fundo, um quadro macroeconômico nacional que se mantém absolutamente descolado da confusão na área politica e registra números de encher os olhos de qualquer investidor: inflação de 2,5%, Selic em recorde de baixa, 7%, índice de desemprego ainda alto, 13%, mas declinante mês a mês, consumo das famílias aumentando e PIB positivo, agora já bem próximo de 1%, mais que o dobro da projeção inicial para o ano.

Neste ano, quem diria?, o principal problema do presidente do Banco Central será explicar por que a inflação ficou abaixo do piso mínimo da meta. E a razão não deixará de ser igualmente alentadora: deflação no preço de vários alimentos, o que, na prática, estaria na base do aumento do consumo das famílias.

E… E… E..? – São, portanto, vários os motivos. Todos eles mais que suficientes, de fato, para justificar o otimismo. Mas e as sombras, escuras sombras, que ainda emanam das indefinições no campo da Rota 2030, da reforma previdência e, sobretudo, do a cada dia mais complexo e conturbado quadro político nacional?

Tais sombras incomodam, é claro. Mas, aparentemente pelo menos, menos do que se poderia supor. Nas conversas informais, os executivo do setor dão mostras de confiar que a definição das bases do Rota 2030 seria apenas uma questão de tempo. E, talvez,  de pouco tempo. Eventualmente menos de quinze dias, o que garantiria sua publicação ainda neste ano, ao menos em seus pontos básicos, tal como mostrou matéria publicada na edição da Agência AutoData de sexta-feira, 15.

E quanto a reforma previdenciaria e as indefinições que ainda permanecem na área política, parece haver uma espécie de convicção de que, qualquer que seja o desfecho final do quadro político, o novo presidente que assumir, seja ele de qual partido for, não terá muitas outras opções além da dar prioridade a colocar e a manter em ordem o quadro econômico nacional, sob pena de não conseguir reduzir o ainda elevado desemprego atual e nem resolver o combalido cenário financeiro no qual vários estados se encontram.

Na pratica, conforme esta interpretação, o próprio quadro atual acabaria representando uma espécie de garantia de continuidade das reformas, inclusive a previdenciária. Seria, assim, tudo apenas uma questão de tempo. Quando muito, de um pouco mais ou um pouco menos de tempo.

DÚVIDA E LIÇÃO – De qualquer forma, este 2017 que agora esta prestes a se encerrar parte deixando como legado para 2018 pelo menos uma dúvida e uma boa o oportuna lição.

A dúvida: por que, afinal, os cinco carros mais vendidos neste ano não conseguiram ser um sucesso de crítica? Ou, numa visão espelhada,  por que os carros que foram sucesso da crítica não conseguiram se colocar entre os cinco mais vendidos?

E a lição: as voltas com seus próprios e graves problemas financeiros, o governo, até por absoluta falta de alternativa, nada fez, neste ano, para socorrer o setor automotivo. E, mesmo assim, as vendas domésticas  de veículos estão crescendo quase 10%, as exportações serão recordes e, em decorrência, a produção vai crescer quase 30%.

Conclusão: o setor automotivo pode perfeitamente viver as suas próprias custas. E, sem depender do governo, por certo até melhor. Muito melhor.

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