De fazer inveja ao Vale do Silício.

9 dez

Nos últimos trinta dias diversos pesos pesados da produção mundial de veículos apresentaram automóveis, caminhões e ônibus autônomos, elétricos e compartilháveis com os quais acreditam poder ocupar espaço no novo mundo automotivo que começa a mostrar seus dentes e ameaça mudar consideravelmente a face centenária deste setor.

Os produtos apresentados mostram muitos pontos em comum na visão das várias montadoras em relação ao futuro do setor automotivo. Futuro, aliás, que pode estar bem próximo: ainda que em caráter experimental, alguns destes novos veículos ou iniciativas começarão a chegar ao mercado já em meados do próximo ano e outros tantos em 2019.

Entre os vários cenários de futuro delineados aparece com especial força o conceito de que a venda de veículos, sejam automóveis, caminhões ou ônibus, representa, ao menos nos maiores centros urbanos, atividade a caminho da extinção. Da mesma forma, aliás, que os motores a combustão, sobretudo os alimentados por combustíveis fósseis.

A aposta, no caso, é a de que ao longo da próxima década os consumidores tenderão a passar a pagar pelo uso dos veículos e não mais para ter sua propriedade. Exigirão, ainda, o direito de poder utilizar sempre veículos que sejam adequados à necessidade especifica de cada momento. Sejam veículos individuais ou compartilhados. Sejam de passageiros ou de carga.

NO TOPO – É neste contexto que os veículos autônomos aparecem no topo da lista das prioridades das montadoras. Explica-se: ao alcance de um app no celular — tal como o Uber ou o 99 Taxi — mas sem ter de arcar com o custo do motorista e ainda com o carro podendo rodar 24 por dia, está forma de mobilidade individual tende a reduzir a menos da metade o preço a ser pago pelo deslocamento.

Que não se pense, todavia, que o futuro das montadoras estará restrito, então, a fabricar e fornecer veículos para o Uber e assemelhados ou, eventualmente, para empresas locadoras readequadas aos novos tempos.

A mudança pode ser – e muito provavelmente será – bem maior. Acontece que no modelo atual, que é basicamente o mesmo já há mais de um século, a montadora lucra – e pouco, em termos unitários — apenas no momento em que vende cada um dos veículos que fabrica. Veículos que, a partir de então, passam a gerar lucros para outras partes.

Pois bem: se a invés de vender esta mesma montadora mantiver a propriedade e passar a utilizar este mesmo veículo num serviço próprio que possa ser acessado por app, eventualmente rebatizado de robô-táxi, lucrará com ele não apenas uma vez, mas, sim, a cada nova corrida que for feita. E continuará lucrando por toda a vida útil do veiculo.

Este foi, pelo menos, o raciocínio apresentado há poucos dias, nos EUA, por executivos da General Motors que participaram da apresentação do projeto da empresa para carros autônomos e elétricos, ao explicar porque empresa considerava que esta era uma fase não de risco, mas, sim, de grandes oportunidades.

A General Motors, vale destacar pretende fazer o lançamento comercial de seus veículos autônomos para ambientes urbanos já em meados 2019.

VAN ELÉTRICA – Não se trata de um caso isolado. Bem ao contrário. Ainda na última semana a Moia, a divisão de mobilidade que a VW criou especificamente para desenvolver outras formas de gerar receitas com veículos, apresentou, na Alemanha, uma van elétrica desenvolvida especialmente para compartilhamento.

É, no fundamental, uma versão revista e atualizada das antigas lotações que existiam em São Paulo o no Rio de Janeiro em meados do século passado: varias pessoas com um destino semelhante dividindo os custos da viagem.

Devidamente adequado a estes tempos da chamada Nova Economia, o serviço a ser prestado pela van apresentada pela Moia apoia-se num app que tem, em sua base, algorítmico de agrupamento que reúne os passageiros com destinos similares e define o melhor trajeto a ser feito pelo veiculo.

Cada van comporta seis passageiros. Cada um deles terá direito a poltrona individual, tomada USB e internet banda larga wifi, além de um espaço para pequenas bagagens posicionado ao lado da porta.

Em um a dois anos, no máximo, o serviço entrará em operação em Hamburgo. Inicialmente com uma frota de duzentas vans, a ser gradativamente aumentada até mil veículos.

Também na ultima semana a Nissan apresentou, no Japão, seu novo serviço de compartilhamento de veículos, com pagamento conforme o uso. Os dois veículos envolvidos – o Leaf e Note e-Power, são elétricos. E o serviço será oferecido inicialmente em nove cidades, Tóquio naturalmente entre elas, cada uma com trinta estações.

CARGA – Na área de carga, a Mercedes-Benz acaba de apresentar na Alemanha a nova versão da Sprinter que define como um veículo já desenvolvido para poder atuar, inclusive, em combinação de serviços de compartilhamento e aluguel.

Embora tenha nascido diesel, esta nova versão, a exemplo da van eVito, também recém apresentada pela empresa, deverá ganhar opção de tração elétrica muito em breve.

Com inicio da produção previsto para o primeiro semestre do próximo ano, esta nova versão da Sprinter tem como principal diferencial, segundo a empresa, tal flexibilidade estrutural que permite sua total adequação a nova e bem mais complexa logística exigida nestes tempos de comércio on line, quando as entregas, inclusive urbanas, cada vez mais precisam de ser feitas no dia seguinte ao da compra, quando não no mesmo dia.

Na verdade, o setor automotivo como um todo começa a tentar se adequar a estes novos tempos. A sistemista Delphi, por exemplo, acaba de se dividir em duas, uma específica para veículos autônomos e a outra com foco nos elétricos. E a Shell, por sua vez, acaba de adquirir a New Motion, rede de recarga de veículos elétricos.

HENRY FORD – A rigor, deste que há mais de um século Henry Ford adaptou o conceito de linha de montagem que tinha visto num açougue para sua fábrica de carros, o setor automotivo exerce o papel de puxador de novos processos de desenvolvimento, produção, gestão e comercialização. Processos que, depois, por sua maior eficiência, acabam se espalhando por todos os demais setores industriais.

O que muda, desta vez, e a velocidade com a qual o processo vem se dando e a proposta de disruptura que contém. Não sem razão. Acontece que, agora, ao contrário dos últimos cem anos, os concorrentes a serem enfrentando não estão restritos ao reino das montadoras, mais que conhecidas por sua pesada estrutura administrativa e morosidade nas decisões.

Os inimigos estão, agora, em qualquer lugar. São, no fundamental, empresas que nada tinham a ver com o setor automotivo e são, na maior parte dos casos, relativamente novas, com não muito mais de dez anos de vida, a exemplo do Google, Tesla, Uber e
Amazon.

Em comum, estes novos inimigos, são verdadeiras potencias financeiras e, sobretudo, estão acostumados a encarar a inovação radical, aquela que muda conceitos, que provoca disruptura, não como um risco, mas, sim, como uma oportunidade. Oportunidade de ocupar todo o espaço e aniquilar a concorrência. Qualquer que seja ela. Qualquer que seja o seu porte.

Até algumas empresas chinesas já se aventuram a ciscar na área, como é o caso da DiDi Chuxing, a maior empresa de transporte por meio de aplicativos no mundo. Como parte de um projeto de globalizar sua atuação, em meados deste ano esta empresa investiu U$ 100 milhões na brasileira 99 Taxi.

Atentas a esta nova realidade com a qual precisam agora conviver, as empresas do setor automotivo como um todo começam a se reestruturar. Até por falta de alternativa, começam a mudar, e muito,  sua maneira de ser e de fazer as coisas.

Exemplo bem prático e algo contundente: o desenvolvimento da nova van elétrica que acaba de ser apresentada pela Moia consumiu apenas dez meses. É de fazer inveja até ao Vale do Silício.

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