Unir as forças. Nem que seja por esperteza.

27 nov

Menos de uma semana antes do inÍcio do último mês de vigência do Inovar-Auto  não há ainda como saber, com maior dose de certeza, quais serão exatamente as bases do Rota 2030, o programa setorial automotivo que, em princípio, deveria substituí-lo a partir de primeiro de janeiro.

Na raiz do problema há uma desavença nesta reta final entre o ministério da Fazenda e o da Indústria, Comércio e Desenvolvimento, com o qual o setor negociou os parâmetros do novo programa ao longo de todo este ano. Com sobras até para a área de Relações Exteriores em razão do acordo de livre comercial em negociação entre o Mercosul e a União Europeia.

Há poucos dias, os presidentes de quase todas as montadoras instaladas no Brasil fizeram verdadeira romaria a Brasília, numa tentativa de tentar mostrar ao próprio presidente da Republica o quanto o novo programa seria importante para o setor, sobretudo por definir parâmetros de meio prazo, até quinze anos a frente.

Não adiantou. E há pelo menos uma boa e concreta razão para o insucesso. Trata-se da incrível capacidade que o setor automotivo tem de ser encarado sempre como parte do problema e nunca como uma possível solução.

Há anos e anos é assim. Basta que alguém diga que os incentivos fiscais concedidos para as montadoras são demasiados ou desnecessários – tal como agora argumenta o ministério da Fazenda — para que haja imediata e generalizada concordância no mundo fora dos muros do setor.

MÁ VONTADE – Esta relativa má vontade em relação ao setor automotivo não deixa de ser compreensível. É difícil, de fato, aceitar que mais de meio século depois de ter iniciado suas atividades no País, as empresas desta área – todas elas ligadas a grandes grupos globais – ainda necessitem de proteção governamental para conseguir se manter e sobreviver.

Mas é triste que assim seja. Se posicionados lado e lado e com objetivos comuns bens definidos, esta dupla – governo e setor automotivo, setor automotivo e governo – por certo teriam, em conjunto, muita contribuição a dar. Ainda mais numa fase como a atual na qual os avanços da inteligência artificial tendem a provocar rápidas e marcantes transformações em todas as áreas vitais para este setor e para o País: engenharia, produção, comercialização e serviços de forma geral.

Não seria a primeira vez em que a união destas duas partes renderia bons frutos para o País, todos de boa qualidade. Vale lembrar que quando as montadoras começaram a fincar suas bases no Brasil, no final dos anos 1950, início dos anos 1960, a convite  e com apoio do então presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, São Bernardo do Campo era, ainda, uma região na periferia de São Paulo cuja maior utilidade era servir de palco para piqueniques nos finais de semana.

Na mesma época, antes do montar sua fábrica, a Mercedes Benz precisou derrubar um mito do qual ninguém então duvidada: o de que o clima quente e úmido tornava impossível fundir um bloco do motor abaixo da linha do Equador.

CHARCO – Pouco mais adiante, na mesma via Anchieta, a Karmann-Ghia tomou o cuidado de colocar sua fabrica no alto de uma colina, na qual está até hoje, como forma de garantir a continuidade da produção mesmo quando chovia. Não funcionou: a região inteira se transformava num charco e os ônibus que traziam os operários não conseguiu subir a ladeira.

A pouco metros dali o então presidente da Scania tinha que dormir na fábrica quando chovia: a estrada que ligava São Bernardo do Campo  com o bairro do Alto da Boa Vista, em São Paulo, no qual ficava sua casa, era de terra e ficava intransitável. E ele nem podia avisar a família porque uma ligação telefônica entre as duas cidades levava horas para ser concluída. Quando era concluída!

A mesma Scania, aliás,  só conseguiu montar seu efetivo de pessoal depois que abriu mão de qualquer tipo de exigência e publicou nos jornais locais um anúncio com os seguintes dizeres: “Contratamos operários. Alfabetizamos e treinamos”. Vale enfatizar: “Alfabetizamos”.

Ainda na via Anchieta, a Volkswagen só  iniciou a montagem da Kombi, o primeiro veículo que produziu no Brasil, graças a decisiva ajuda do motorista do então presidente da empresa.

Adotado quando criança por uma família alemã, cabia a este motorista ler e traduzir para os operários na linha as instruções para a montagem do veículo que chegavam da matriz. Todas escritas em alemão, naturalmente.

HOTEL – Um pouco mais distante, em São José dos Campos, no interior paulista, a General Motors foi obrigada a iniciar sua fábrica pela construção de um hotel. Pela simples e boa razão de que não havia, na região, qualquer outra opção para alojar os engenheiros que iram cuidar da obra.

Eram outros tempos. Tempos de muitas e boas histórias. A Ford, por exemplo, foi buscar no Jabaquara Futebol Club, da baixada santista, um goleiro que necessitava para o time da empresa. Para justificar a contratação ele foi colocado como uma espécie de estagiário da área jurídica, pela qual pegou gosto e seguiu carreira. Era ninguém mesmo que Newton Chiaparini, que chegou a vice-presidente da montadora e presidente da Anfavea. 

Era um Brasil muito diferente. Pouco antes de ser iniciada a produção do Fusca, a venda do produto foi oferecida a Mesbla, então a maior importadora de veículos de Brasil.

A resposta da Mesbla é um retrato de corpo inteiro do que era o Brasil daquela época: “É melhor a Volkswagen desistir. No Brasil só existem ricos e pobres. Os ricos compram os carros que importamos. E os pobres lavam os carros que os ricos importam. Os ricos não vão querem um carro tão simples. E os pobres não vão ter como compra-lo”.

Aqueles desafios foram todos enfrentados, vencidos e, hoje, quase que inacreditavelmente, a partir daquela irrisória base o setor automotivo instalado no Brasil tem lugar garantido entre os dez maiores do mundo, com alguma chance, boa chance, de se colocar até entre os cinco maiores.

Embora completamente diferentes, os desafios atuais — agora ditados pela indústria 4.0, o comércio 4.0 e o serviços 4.0 – são maiores e até bem mais complexos do que os daquele período inicial.

Para enfrentar esta nova fase de desafios, que tal, então,  cada qual tentar entender os problemas da outra parte e, a partir deles, definir metas e objetivos comuns que possam atender  desejos e  necessidades tanto do governo quanto do setor automotivo?

Que tal, em sintese, aprender um pouco com o passado e unir as forças? Nem que seja por mera esperteza.

 

 

 

4 thoughts on “Unir as forças. Nem que seja por esperteza.

  1. E ai , como vai? Filhos mais do que crescidos? Enquanto vc permaneceu no jornalismo/automobilismo, eu me firmei na Psicologia, aonde estou há já 21 anos.
    Só que andou dando umas ‘coceiras’ e ultimamente tenho perpetrado algumas matérias Psi, a maioria com foco em Gerontologia, área que me especializei no Hosp do Servidor Publico Estadual. Já são 5 artigos publicados neste mesmo LinkedIn desde o ano passado.
    Mas voltando à vaca fria, ou melhor aos automóveis, a Mesbla pagou a língua, pois num certo momento comprou a Cibramar, concessionária Volkswagen!
    É. Não se deve dizer “desta água não beberei!”
    Abraços e mande notícias.
    Marcos Manhanelli
    Psicólogo
    Psicoterapeuta

    • Salve, salve! Como vai? Também continuo na labuta, agora tentando me aventurar nesta áreas dos colunistas, que é bem mais complexa e dificil. Numa materia, quando abre aspas, passa a responsabilidade toda para o entrevistado. No artigo cada letra, cada pensamento, cada conceito é da sua total responsabilidade. É divertido. Ainda nesta fase da Nova Economia que deve promover uma mudança radical no mundo nos proximos cinco a dez anos, tudo potencializado pela tal da inteligencia artificial. Masme fale de você. Nos nossos tempo de Academia, qualquer pessoa com 45 anos já entraria na sua lista de clientes, no minimo em potencial. E hoje quais sao os parametros da gerontologia? Quias sao as questoes que hoje aparecem na sua sala? Abraços.

      • Então. O primeiro artigo que ousei foi publicado na revista Hermes do curso de Cinesiologica Psicológica do Sedes Sapientiae em 2011.
        O título é “Envelhecimento ou Longevidade? Ou ainda, como ser um Magnetismo Reentrante?
        Aí eu coloquei minha visão sobre o Idoso atual.
        Basicamente, partindo do conceito Junguiano de Metanoia (metade da vida) defendo que ao se chegar a um ponto onde os 4 F’s – Família, Filhos, Formação(carreira) e Finanças(patrimônio) estejam estabelecidos, o indivíduo passa poder escolher o caminho a seguir, por que quer ou gosta e não porque precisa.
        A energia despendida até então que foi dirigida ao externo deve ser voltado para o interno para si mesmo.
        É o ponto da “Aposentadoria”. Aquela obtida pelo que foi conquistado até então e não o momento de se retirar. Pois ninguém se aposenta da vida!
        Mas te convido o ler o artigo e me dizer da sua visão sobre esta questão.
        Afinal, como vc lembrou, ano passado completamos 50 anos do início de nossa experiência no Barro Branco.
        Não é pouca coisa , né?

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