Haja barba para colocar de molho…

19 nov

A carteira de motorista saiu da lista de prioridades de pelo menos um quarto dos jovens brasileiros que alcançam a maioridade. E este desapego em relação ao documento configura-se como uma tendência que vem crescendo a cada ano

Pesquisa realizada pela FCA junto a este universo especÍfico mostrou uma curiosa e de certa forma surpreendente contradição em termos: estas pessoas não tem a menor intenção de trocar o transporte individual pelo de massa. Apenas e tão somente não querem dirigir.

De tão pragmática, a razão apresentada é de difícil, de quase impossível contestação. Segundo João Batista Simon Ciaco, diretor de comunicação e marketing da FCA, os jovens consultados consideram pura perda de tempo dedicar uma ou duas horas por dia exclusivamente ao ato de dirigir um carro para, por exemplo, ir e vir do trabalho ou da escola.

Ainda acreditam que o transporte individual, vulgo automóvel, continua sendo a melhor e mais confortável forma de mobilidade, sobretudo nos grandes centros urbanos. Mas querem poder utilizar melhor e de maneira mais útil o tempo consumido nos deslocamentos.

GERAÇÃO UBER – É o que se poderia chamar de geração Uber. São pessoas que nasceram antes de 2010, o ano no qual o aplicativo ganhou vida, mas chegaram a maioridade já com outras e novas alternativas de garantir a liberdade de mobilidade individual. Liberdade que, antes, por mais de um século antes, só o automóvel próprio era capaz de oferecer.

O Uber, por sinal, em função da disruptura que representa, vem merecendo cada vez mais atenção e destaque entre os estudiosos da chamada Nova Economia.

Disruptura não apenas na área da mobilidade urbana, mas, sobretudo, nas formas de empreender, relações trabalhistas, legislações tributárias, prestação de serviços e até na real necessidade de se possuir ou não determinados bens materiais, o automóvel na cabeça da lista.

Neste mundo da Nova Economia, o Uber é definido como a pequena ponta visível do verdadeiro iceberg das grandes transformações que prometem mudar o mundo em todas as áreas nos próximo cinco a dez anos.

INÍCIO –   Pode até haver uma boa dose de exagero nesta interpretação. Mas é certo que, na área automotiva, em especial, o potencial de disruptura do Uber está apenas em seu inicio e não é nada desprezível.

E no Brasil, em particular, seus os efeitos tem boas chances de terem sido antecipados e agudizados pelos três anos seguidos de crise econômica do Pais que gerou 13 milhões de desempregados e derrubou as vendas do setor automotivo praticamente pela metade.

Ainda que por falta de alternativa, muitos consumidores acabaram sendo obrigados a se desfazer do carro próprio, seja por decisão própria ou das financeiras das quais tinham tomado dinheiro emprestado para viabilizar a compra.

Não foram poucas, também, neste mesmo período, as famílias que foram forçadas a abrir mão de manter vários carros na garagem, um do pai, outro da mãe, um do filho, outro da filha e, ainda, um adicional de reserva para cobrir o dia de rodízio dos demais.

SEM CARRO – A questão é que varios destes consumidores acabaram descobrindo que podem perfeitamente viver – e em alguns casos até melhor – sem um carro próprio. Basta, para isso, que tenham um celular com acesso ao aplicativo do Uber ou de qualquer de seus assemelhados.

São consumidores, em síntese, que foram literalmente jogados no colo da Nova Economia. Consumidores que aprenderam que, sim, pode, de fato, ser viável e vantajoso, muito vantajoso, trocar o consumo de bens pelo de serviços.

É bem verdade que, no caso brasileiro, com a má qualidade do transporte de massa e a insegurança das pessoas de andar a pé pelas ruas, o uso individual do automóvel próprio acabou vitima de boa sorte de distorções. Como, por exemplo, entre tantos outros, o fato do estacionamento ao lado do teatro não raro custar tanto ou até mais do que o ingresso para ver o espetáculo.

São distorções que, agora, tenderão a se submeter a nova realidade ditada pelo Uber e seus pares e, assim, devidamente embalados na onda da Nova Economia, vão acabar se acomodando em torno de valores mais condizentes. E, ainda que em outras bases, certamente bem mais modestas, os estacionamentos continuarão sua vida.

CAIPIRINHA – Como, porém, o setor automotivo poderá trazer de volta aqueles consumidores que aprenderam que livres da necessidade de dirigir seus automóveis podem muito bem estender a happy hour por mais três ou quatro chopes? Ou, melhor ainda, incluir a caipirinha o almoço regado a feijoada? Caipirinha, aliás, que custará menos do que o que seria gasto no estacionamento do restaurante.

São liberdades que, uma vez experimentadas e conquistadas, são difíceis de se abrir mão. São liberdades que, de certa forma, permitem entender melhor a opção que cada vez mais jovens vem fazendo ao alcançar a maioridade.

A FCA, pelo menos, segundo Ciaco, ainda não tem dados mais concretos sobre a consistência e possíveis impactos que estas mudanças de hábito dos consumidores podem vir a ter no mercado automobilística brasileiro.  Tanto no curto e quando no médio prazos

É certo, todavia, que os efeitos não serão exatamente desprezíveis. Quem se dar ao trabalho de  lançar mão de aplicativo, chamar um Uber e, no trajeto, perguntar ao motorista quem está usando o serviço vai constatar o quanto, na pratica,  esta sendo rápida e profunda a mudança que esta nova forma de mobilidade está provocando na forma de se trabalhar e de se viver.

Vai constatar o quando já é significativo o universo de consumidores que está deixando cada vez mais o carro na garagem na hora de realizar diversos tipo de atividades, sobretudo as ligadas ao trabalho ou mesmo as pessoais que exigem o pagamento de estacionamento no local onde são realizadas.

Vai constatar, inclusive, o quando já  é no mínimo bastante razoável o universo de pessoas, sobretudo nos extremos, dos mais jovens numa ponta e nos de maior idade na outra, que simplesmente estão abrindo mão de manter um automóvel próprio na garagem. Pessoas que não veem mais qualquer necessidade de ter um carro para chamar de seu.

INDICATIVO – É claro que uma ou outra consulta ao universo especifico dos motoristas de Uber não tem qualquer valor estatístico. Mas, mesmo assim, que tal perguntar? No mais das vezes, a resposta, ainda que meramente indicativa, é de fazer qualquer pessoal que trabalhe no setor automotivo colocar as barbas de molho.

E mais: no curso virtual sobre Nova Economia promovido pela StartSe, no capítulo especificamente dedicado ao estudo do Uber é lembrado que, hoje, a maior parte do preço pago pelo consumidor do serviço por um deslocamento serve para arcar com o custo do motorista. Custo que tende a desaparecer com os carros autônomos já em avançado estagio de desenvolvimento.

Ou seja: do cruzamento do Uber com os carros autônomos, o que deverá acontecer em cinco anos, pouco mais, pouco menos, vai nascer uma forma de mobilidade individual capaz de garantir o direito e a liberdade de ir e vir a um custo quase irrisório, bem próximo de zero.

Haja barba para colocar de molho.

 

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