Em compasso de descompasso.

7 nov

A produção de veículos no Pais cresceu 27% nos nove primeiros meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Tal retomada, todavia, não se refletiu na área do emprego: de janeiro a setembro o efetivo do setor aumentou apenas 4,2%. É um descompasso e tanto.

Em números reais, enquanto a produção cresceu 422 mil unidades neste período, de 1 milhão 564 mil para 1 milhão 886 mil, o efetivo do setor aumentou apenas 5,1 mil pessoas, de 121,2 mil para 126,3 mil.

Tal descompasso não representa, todavia, monumentais ganhos de eficiência conseguidos pelas montadoras nos últimos anos ou, na outra ponta, excesso de prudência  atual ou, mesmo, alguma forma de falta de colaboração por parte das empresas.

Acontece que enquanto a produção do setor de 2013 a 2016 caiu 41,9%, de 3 milhões 712 mil para 2 milhões 156 mil veículos, a redução do efetivo neste mesmo período ficou quase que na metade deste índice, em 22,7%, de 156,9 mil para 121,2 mil pessoas.

EQUIVOCO Vale lembrar que quando a crise começou, em 2104, não eram poucos os executivos que consideravam que estavam diante apenas de uma pequena acomodação do mercado. Quase que uma decorrência natural de mais de uma década inteira de resultados anuais sempre positivos.

Com base nesta equivocada interpretação, a primeira reação ao desaquecimento do mercado limitou-se, naquele ano, a interrupção das horas extras e as tradicionais férias coletivas.

E mesmo depois que se constatou o quanto a crise era bem mais séria, diversos outros mecanismos recém-criados ajudaram a amortecer o impacto na área trabalhista. Em especial o lay-off e o Programa de Proteção ao Emprego (PPE), agora repaginado e rebatizado de Programa Seguro Emprego (PSE).

A partir de tais iniciativas, milhares de funcionários que seriam demitidos foram mantidos em casa, sem trabalhar. Passaram a formar uma espécie de contingente de reserva, a espera de que uma retomada do mercado voltasse a abrir espaço nas linhas de montagem ou nos escritórios.

TRÊS ANOS Também colaborou para manutenção desta, digamos, reserva estratégia de pessoal bem treinado o fato de os executivos do setor terem, de forma geral, atravessado os três anos seguidos de queda nas vendas sempre acreditando, igualmente de maneira equivocada, que a crise estava no fim e que, assim, o próximo ano seria o da retomada – o que, na realidade, acabou acontecendo apenas neste 2017.

É justamente este contingente de reserva que está provocando, agora, o descompasso. Está fazendo com que os generalizados anúncios das montadoras de aumentos da cadência de produção, tanto na área de automóveis, quanto na de caminhões, não se reflita no crescimento proporcional do efetivo de funcionários.

Vale ressaltar, além disso, que, depois de três anos de frustração, o setor entrou neste ano apostando apenas numa leve retomada. Nada muito além de 4% de crescimento em relação ao ano passado, índice perfeitamente possível de ser alcançado somente com horas extras ou, em alguns casos, em particular na área de caminhões, com a volta da jornada de trabalho de cinco dias por semana.

A rigor, foi somente a partir do final do terceiro trimestre, inicio deste quarto, que as empresas se animaram a rever para cima, bem para cima, suas projeções para este ano e, em decorrência, a começar a trazer de volta para as linhas de montagem parte do pessoal que estava em casa, formalmente fazendo cursos de especialização, tal como o previsto na lei.

FUNDAMENTOS – Dois pontos foram fundamentais para esta mudança: crescimento nos nove primeiros meses deste ano de 11,7% nas vendas domésticas de veículos produzidos localmente e, simultaneamente, aumento de 55,7% nas exportações, neste caso puxadas por uma inesperadamente forte retomada do mercado argentino, o principal destino no exterior das exportações brasileiras nesta área.

É bastante provável, de qualquer forma, que mesmo depois que todo este contingente de reserva esteja novamente ocupado, muita hora extra ainda vá correr por debaixo desta ponte antes de que novas contratações comecem a ser feitas em larga escala.

É bem verdade que os executivos do setor trabalham, hoje, com a projeção de crescimento, no próximo ano, de 5% a 10% nas vendas de automóveis e de 10% a 20% na de caminhões.

Mas também é igualmente verdadeiro que tais projeções vêm sempre seguidas da observação de que o cenário futuro é positivo para o setor, “desde que o quadro da política não se deteriore mais ainda, a pondo de voltar a prejudicar a economia, tal como acontecia até o ano passado”.

ELEIÇÕES – Na pratica isto significa que, ao menos até que o quadro político para 2018 esteja mais definido, sobretudo no que se refere as eleições presidências, a tendência é a de que todos trabalhem com um olho no acelerador e outro no freio. (Ver neste blog “Difícil decisão: acelerar ou frear” e “Indefinições, encruzilhadas e armadilhas).

Cabe ressaltar, ainda, que uma das marcas registradas do setor automotivo é a busca incansável e permanente de aumento da eficiência. É uma característica que se fortalece e aprofunda ainda mais em fase de crises, como a enfrentada de 2014 a 2016.

Ou seja: é provável, muito provável, que mesmo quando voltar a alcançar o volume recorde de 3 milhões 713 mil unidades que produziu em 2013, o setor o fará com efetivo bem menor do que os 156,7 mil funcionários daquele ano, número igualmente recorde.

NÚMEROS – Para quem ainda tiver algum tipo de dúvida, é bom prestar atenção na histórico do setor no Brasil e em alguns números em particular que podem ser encontrados na ultima edição do Anuário da Anfavea.

Eis os números:

  • com efetivo equivalente ao de hoje, em 1976 o setor fabricou 924 mil veículos no ano. Foram 7 veículos por funcionário.
  • em 2003, dez anos antes do recorde de vendas e de produção de 2013, o setor precisou de 90,6 mil funcionários para fabricar 1 milhão 663 mil veículos. Foram 18 veículos por funcionário.
  • em 2013, o ano do recorde, 156, 9 mil funcionários produziam 3 milhões 712 mil veículos, 23,6 unidades por funcionário.
  • neste ano, mantido o atual ritmo de vendas e de exportação, serão fabricados 2 milhões 710 mil veículos e esta relação deverá se reduzir para 21,2 unidades por funcionário, decorrência natural do fato de parte do atual efetivo, de126 mil pessoas, ainda ter permanecido em casa por vários meses em regime de lay-0ff ou de PSE

EVOLUÇÃO No passado, tais aumentos na relação veículos produzidos por funcionário decorreu, entre outros pontos, do desenvolvimento de novos sistemas de produção, do repasse para os sistemistas de parte das tarefas antes restritas das montadoras e de fusões, bem como da gradativa redução dos custos das maquinas com eletrônica embarcada, robôs incluídos.

Trata-se, por sinal, de processo que tende a ganhar velocidade ainda maior nos próximos anos, com a generalização da chamada indústria 4.0 e suas maquinas e equipamentos dotados de inteligência artificial. As quais, por sinal, já começam a se fazer presentes cada vez com mais frequência nas linhas de montagem, nas salas da engenharia e em algumas salas do prédio de administração.

Há até quem diga, hoje, que o impacto de tais equipamentos com inteligência artificial na área do emprego será de tal monta e de forma tão generalizada que, a médio prazo, não restará aos governos dos países industrializados outra alternativa a não ser adotar para toda a população programas que garantam renda mínima do Estado para todos. Trata-se, certamente, de um certo exagero. Tomara.

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