Dúvidas, dúvidas e ainda mais dúvidas

22 jul

Pelo menos três dúvidas de bom tamanho atormentam, hoje, no Brasil, a vida dos executivos do setor automotivo, quase todos mergulhados na missão desta vez quase impossível de definir os contornos básicos do budget do próximo ano. São elas:

  • Já chegou ou não ao fundo do poço a atual crise da indústria automobilística instalada no País?
  • Para quando, afinal, seria prudente projetar o momento de inflexão para cima da curva de vendas e de produção?
  • Como se dará a retomada a partir de então? Ou, em outras palavras, quantos anos serão necessários para retornar aos números recordes de 2013?

Tais questões estiveram presentes em todas as palestras, painéis de debates ou mesmo nas conversas de corredores que marcaram, na segunda-feira, 20, em São Paulo, o seminário Revisão das Perspectivas 2015, promovido por AutoData.

Ao longo de todo o dia ficou evidente a total impossibilidade de se chegar a qualquer resposta consensual sobre estes temas. Em cada cabeça, uma sentença diferente para cada uma das três questões.

Há consenso de que é bem mais política do que econômica a causa central da atual crise vivida pelo País e da qual resulta a derrocada dos números automotivos.

Mas como ninguém se atreve a projetar nem prazos e nem desfechos prováveis para esta questão política, não há também como tentar prever quanto tempo será necessário e nem como se dará o tão propalado ajuste fiscal, tido e havido como o ponto de partida de qualquer retomada da economia.

Na média das opiniões, são grandes as chances de tudo estar resolvido em algum momento do final de agosto a outubro. E todos apostam em uma solução dentro das regras de democracia, sem qualquer risco de ruptura institucional de consequências sempre imprevisíveis.

No entanto, aquelas três dúvidas básicas têm vida setorial própria que transcende ao quadro macro, seja político ou econômico.

A questão do fundo do poço, por exemplo, tem duas vertentes de vendas e ainda uma terceira, esta específica da produção.

No front das vendas há quem aposte que em razão da série histórica, maior numero de dias úteis e 13º. salário, é provável que as vendas, ao menos as de automóveis, tendam a se manter estáveis neste segundo semestre, com números próximos aos registrados de janeiro a junho.

Outros, porém, consideram que o pior ainda estaria por vir. Para estes, o ciclo de demissões em massa, sobretudo no setor de serviços, está apenas se iniciando e tende a se agravar nas próximas semanas, aumentando a insegurança dos consumidores em geral.

Isto derrubaria ainda mais as vendas de automóveis, em particular, e, na medida em que tornaria o PIB mais negativo, tornaria mais difícil também a venda de caminhões. Neste caso, no fundo do poço a queda nos caminhões chegaria mais próxima de 50% e a de automóveis a 25%.

Todavia, mesmo por aqueles que acreditam na estabilidade das vendas, há certo consenso de que, na ponta da produção, em particular, o fundo do poço com certeza não chegou.

E trata-se, no caso, de raciocínio que, de tão pragmático, é praticamente incontestável: o setor entrou em julho com estoques muito acima do desejável, seja de automóveis, caminhões, ônibus, maquinas agrícolas, patinetes, rodas, volantes, maçanetas ou parafusos.

Tudo isto terá de ser equacionado até dezembro. E se, tal como se projeta, não o for pelo lado do aumento das vendas, fatalmente terá de ser pela redução da produção.

Quando ao momento da inflexão da curva, as projeções são, no fundamental, basicamente duas: no final deste ano, já como resultado do equacionamento da crise política ou, na aposta pessoal que foi cacifada no evento de AutoData por Luiz Moan, presidente da Anfavea, no segundo trimestre do trimestre de 2016.

Resta, ainda, a questão da velocidade da retomada. Na análise de Leticia Costa, da Prada Consultoria, uma das palestrantes do evento, desde a crise global de 2008 o Brasil automotivo vive uma realidade artificial inflada por toda sorte de incentivos que, agora, apresenta a conta. Dura conta. Cujo pagamento provavelmente implicaria na aceitação de que o tamanho real do mercado automotivo brasileiro, de automóveis a caminhões, seria menor que o registrado nos últimos anos.

Na outra ponta estão os que advogam que os fundamentos estão todos mantidos e que, assim, passado o atual olho do furacão, logo será retomado o caminho para, em até cinco anos, o Brasil voltar a ser o quarto maior mercado de automóveis do mundo e, talvez, o segundo ou terceiro de caminhões, ônibus, motos e máquinas agrícolas.

Vale repetir a manchete que marcou, em outubro de1992, a capa da primeira edição da então newsletter quinzenal AutoData: Senhores, Façam os Seus Jogos. Desde então, vale lembrar, foram inúmeras as idas e vindas. E, ainda assim, o setor quase quadruplicou de tamanho.

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