Bem mais do que proteção do emprego

7 jul

Definido no início desta semana o PPE, Programa de Proteção ao Emprego, tem grande potencial para representar bem mais que a manutenção de milhares de empregos que estavam, de fato, na alça de mira. É medida que pode funcionar, na prática, como uma espécie de vacina capaz de transmitir aos consumidores maior dose de confiança também em relação à manutenção desse emprego no futuro.

E pode, assim, abrir o caminho para o início efetivo da recuperação das vendas dos bens de consumo de maior valor, como o automóvel, cuja venda é umbilicalmente ligada a operações de financiamento.

Na semana passada, pela terceira vez em seis meses, a Fenabrave, a associação dos concessionários, reviu para baixo sua projeção de vendas para este ano. Seguiu, assim, a Anfavea, que representa as montadoras e já tinha revisto para baixo sua projeção para 2015 – na média, as duas entidades passaram a projetar para este ano queda da ordem de 20% nas vendas de automóveis e o dobro disso na área de caminhões.

Em ambos os casos, redução bem mais acentuada do que os até 5% de redução que as duas entidades projetavam no início deste ano, quando anda esperavam que apenas o primeiro trimestre seria mais difícil.

Os números registrados no primeiro semestre foram quatro vezes piores do que o inicialmente projetado, o que colheu de surpresa montadoras, concessionários ou produtores de componentes e acabou por desorganizar todo a cadeia automotiva.

Mas, afinal, como se explica que tantos e tão tarimbados profissionais, todos com larga vivência no setor, puderam errar tanto? Justamente por que esta crise atual do setor automotivo, conforme tem repetido o presidente da Anfavea, Luiz Moan, é bem mais de confiança do que econômica.

E quando o fator determinante é um valor tão subjetivo quanto este – a maior ou menor confiança do consumidor em relação a seu futuro – não há regra matemática que possa ser aplicada. Resta, apenas, no fundamental, cruzar os dedos e torcer por um final feliz o mais breve possível.

O mercado de veículos gira em torno de operações de financiamentos com prazo médio de 36 a 48 meses, dependendo da época e do produto. E se há algo que assusta quem está inseguro em relação ao futuro é justamente a obrigação da quitação de volumosa prestação mensal por período tão longo.

Além disso, quem compra veículo 0 KM na maioria das vezes chega no concessionário a bordo de um usado que vai oferecer como entrada. Ou seja: nada é mais fácil para este consumidor do que desistir ou adiar o negócio. No máximo, terá de rodar um pouco mais com seu usado.

E é justamente isto o que torna o mercado de veículos tão volátil e, de certa forma, imprevisível: ao menor sentimento de insegurança em relação ao futuro, os consumidores tendem a adiar a compra. E o setor inteiro mergulha em uma crise absolutamente inesperada, tal como aconteceu neste primeiro semestre.

É certo que parte da queda de vendas registrada de janeiro a junho deveu-se, de fato, a razões econômicas concretas. O espaço reservado no orçamento doméstico para a prestação do carro novo acabou tomado, por exemplo, pelo aumento dos gastos com energia elétrica, reflexos da alta da inflação na conta do supermercado ou, ainda, juros maiores no cheque especial ou cartão de crédito.

Tudo isto, porém, já estava projetado no orçamento das empresas do setor como parte dos efeitos do ajuste fiscal que todos davam como inevitável no início deste ano. Era exatamente isto o que derrubaria as vendas no primeiro trimestre e desembocaria na queda, no ano, de até 5%. A relação matemática, no caso, é velha conhecida do setor: para cada ponto positivo – ou negativo – do PIB, as vendas de automóveis crescem – ou caem – dois a três pontos e a de caminhões de três a quatro pontos.

Na ponta do lápis, para um PIB igual a zero ou levemente negativo neste ano, tal como estava projetado, automóveis registrariam até 5% de queda e caminhões até 10%. Nenhuma sangria desatada. Tudo relativamente dentro do controle.

Todavia, como o ano começou mais difícil do que o esperado, os estoques subiram – inicialmente os de caminhões e depois também os de automóveis –, vieram as ferias coletivas, lay-off, PDVs e as demissões sumárias.

A insegurança dos consumidores em relação ao futuro estava potencializada e roda negativa acionada: com medo de perder o emprego, os consumidores pararam de comprar tudo o que não fosse absolutamente necessário. Com isso, as vendas de forma geral caíram, os estoques subiram, a produção parou e…

É neste contexto que o Programa de Proteção ao Emprego agora definido pode efetivamente começar a abrir o caminho para acontecer, nesta segunda metade do ano, aquilo que antes era projetado para o segundo trimestre: o começo da inversão da rotação da roda. Agora para o lado certo. Para cima.

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